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O PENSAMENTO MITICO

 

 

            Quando pensamos em muitos, hoje, imediatamente lembramos de alguns mitos gregos, como o de Pandora, que abriu a caixa proibida – de onde soltaram todos os males, e onde ficou presa a esperança –, ou ainda do sacipereré, de Tupã e outras lendas que povoaram a nossa infância e que têm origem nas culturas indígenas ou africanas.

            Para nós, portanto, os mitos primitivos não passam de histórias fantasiosas que são contadas ao lado das histórias da Branca de Neve ou da Bela Adormecida.

            O mito, porém, não é isso. Quando vira uma história, uma lenda, ele perde a sua força de mito.

 

  1. O que é o mito.

 

 

O mito entre as sociedades tribais é uma forma de o ser humano se situar no mundo, isto é de encontrar o seu lugar entre os demais seres da natureza. É um modo ingênuo, fantasioso, anterior a toda reflexão, e não critico de estabelecer algumas verdades que não só explicam parte dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural, mas que dão, também, as diretrizes da ação humana. Devemos salientar, entretanto, que, não sendo teórica, a verdade do mito não obedece à lógica nem da verdade empírica, nem da verdade cientifica. É verdade intuída que não necessita de provas para ser aceita. Por essa razão, quando existem várias versões do mesmo mito, não nos devemos preocupar em estabelecer uma versão autêntica, pois é o conjunto dessas versões que constituem a sua realidade.

            O mito nasce do desejo de entender o mundo, para afugentar o medo e a insegurança. O ser humano, à mercê das forças naturais, que são assustadoras, passa a emprestar-lhe qualidades emocionais. As coisas não são mais matéria morta, nem são independentes do sujeito que as percebe. Ao contrário, estão sempre impregnadas de qualidades e são boas ou más, amigas ou inimigas, familiares ou sobrenaturais, fascinantes e atraentes ou ameaçadoras e repelentes. Assim, o ser humano se move dentro de um mundo animado por forças que ele precisa agradar para que haja caça abundante, para que a terra seja fértil, para que a tribo ou o grupo seja protegido, para que as crianças nasçam e os mortos possam ir em paz.

            O pensamento mítico está, então, muito ligado à magia, ao desejo, ao querer que as coisas aconteçam de um determinado modo. É a partir disso que se desenvolvem os rituais como meios de propiciar os acontecimentos desejados. O ritual é o mito tornado ação.

            Os exemplos de rituais são inúmeros já nas cavernas de Lascaux e Altamira, o homem do Paleolítico (1.000 a 5.000 a.C...) desenhava os animais, em estilo muito realista, e depois “atacava-os” com flechas, para garantir o êxito da caçada. Os ritos de nascimento e de morte é que dão ao recém-nascido um reconhecimento como ser vivo, pertencente a uma determinada sociedade, ou, ao defunto, a mudança de seu estatuto ontológico (de ser vivo e ser morto) e sua aceitação pela comunidade dos mortos. Outro exemplo é o da expulsão de uma comunidade uma vez realizados os ritos, a pessoa expulsa não precisa sair da comunidade, pois todos os outros integrantes passarão a não vela-la, não ouvi-la, enfim, a agir como ela não existisse ou não estivesse presente. Para a comunidade, terminado o ritual, a pessoa expulsa desapareceu simbolicamente, mesmo que continue de corpo presente. E essa exclusão social acaba, em geral, levando à morte.

 

 

  1. Funções do Mito.

 

 

            Além de acomodar e tranqüilizar o ser humano diante de um mundo assustador, dando-lhe a confiança de que, através de suas ações mágicas, o que acontece no mundo natural depende, em parte, dos seus atos, o mito também fixa modelos exemplares de todas as funções e atividades humanas.

            O ritual é a repetição dos atos executados pelos deuses no início dos tempos e que devem ser imitados e repetidos para que as forças do bem e do mal sejam mantidas sob controle. Desse modo, o ritual “atualiza”, isto é, torna atual o acontecimento sagrado que teve lugar no passado mítico.

 

OBS:  O mito é uma primeira fala sobre o mundo, uma primeira atribuição de sentido ao mundo, sobre a qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel, e cuja função principal não é explicar a realidade, mas acomodar o ser humano ao mundo.

 

 

  1. Característica do Mito.

 

 

O mito nas sociedades tribais é sempre um mito coletivo. O grupo, cuja sobrevivência deve ser assegurada, existe antes do individuo e é só por meio dele que os sujeitos individuais se reconhecem como tais. Explicando melhor, o sujeito só tem consciência, só se conhece e como parte do grupo. É em função da existência dos outros e do reconhecimento dos outros que ele se afirma,. Por isso, pode ser expulso simbolicamente no momento em que falta o reconhecimento dos outros integrantes do grupo ele não se reconhece e, não se encontra mais.

            Outra característica do mito é o fato de ser sempre dogmático, isto é, apresentar-se como verdade que não precisa ser provada e que não admite contestação. A sua aceitação se dá, então, por meio da fé e da crença. E por não ser uma aceitação racional, o mito não pode ser provado nem questionado.

            Dentro dessa perspectiva de coletivismo, a transgressão da norma, a não-obediência da regra afeta o transgressor e toda sua família ou comunidade. Assim é criado o tabu – proibição – envolto em clima de temor e sobrenaturalidade, cuja desobediência é extremamente grave. Só os ritos de purificação ou de “bode expiatório”, nos quais o pecado é transferido para um animal, podem restaurar o equilíbrio da comunidade e evitar que o castigo dos deuses recaia sobre todos.

 

  1. O Mito Hoje.

 

 

E hoje, os mitos são diferentes? O pensamento crítico e reflexivo, que teve início com os primeiros filósofos na Grécia do século VI a.C.., e o desenvolvimento do pensamento científico a partir do século XVII, com a Idade Moderna, ocuparam todo o lugar do conhecimento e condenaram à morte o modo mítico de nos situarmos no mundo humano?

Essa é a posição defendida por Augusto Comte, filósofo francês do século XIX, fundador do positivismo.

Essa corrente filosófica explica a evolução da espécie humana em três estádios o mítico (teológico), o filosófico (metafísico( e o cientifico. Este último é apresentado como o  coroamento do desenvolvimento humano, que não só superior aos outros, como é o único considerado válido para se chegar à verdade.

Ao opor o poder da razão à visão ingênua oferecida pelo mito, o positivismo empobrece a realidade humana. O Homem moderno, tanto quanto o antigo, não é só razão, mas também afetividade e emoção. Se a ciência é importante e necessária ao entendimento do mundo, não oferece a única interpretação válida do real. Ao contrário, a própria ciência pode virar um mito quando somos levados a acreditar que ela se constitui à margem da sociedade e de seus interesses, que mantém total objetividade e que é neutra.

Negar o mito é negar uma das expressões fundamentais da existência humana. O mito é a primeira forma de dar significado ao mundo fundada no desejo de segurança, a imaginação cria história que nos tranqüilizam, que são exemplares e nos guiam no dia-a-dia. Continuamos a fazer isso pela vida afora. Independentemente de nosso desenvolvimento intelectual. Essa função de criar fábulas subsiste na arte popular e permeia a nossa vida diária.

Hoje em dia, os meios de comunicação de massa estimulam os desejos e anseios que existem na nossa natureza inconsciente e primitiva.

Os super-heróis dos desenhos animados e dos quadrinhos, bem como os personagens de filmes como Rambo. Os intocáveis e outros, passam a encarar o Bem e a justiça e assuem a nossa proteção imaginária, exatamente porque o mundo moderno, com sua crise econômica, seus seqüestro, sua violência e instabilidade no emprego, especialmente nos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais um lugar extremamente inseguro.

No campo político, certas figuras são transformadas em heróis, pregando um modelo de comportamento que promete combater, além da crise econômica, a corrupção, os privilégios e demais mordomias. Prometem, ainda levar o país ao desenvolvimento, inserindo-o no Primeiro Mundo. Prometem riqueza para todos. Têm de ganhar a eleição, não é?

Também artistas e esportistas podem ser transformados em modelos exemplares são fortes, saudáveis, bem-alimentados, têm sucesso na profissão – sucesso que é traduzido em reconhecimento social e poder econômico –, são excelentes país, filhos e maridos, vivem cercados de pessoas bonitas, interessantes e ricas. Como não mitificá-los?

Até a novela, ao trabalhar a luta entre o Bem e o Mal, está lidando com valores míticos, pré-reflexivos, que se encontram no interior de todos nós. Aliás, nas novelas, o casamento também é transformado em mito: é o grande anseio dos jovens enamorados, é a solução de todos os problemas, o apaziguamento de todas as paixões e conflitos. Por isso quase todas terminam com um verdadeiro festival de casamentos.

Só que os astros transformardes em mito são heróis sem poder real: têm somente poder simbólico no imaginário da população.

E as festas de formatura, de Ano-Novo, os trotes dos calouros, o baile de 15 anos, não são em tudo semelhantes aos rituais de passagem? Da morte de um estado e passagem para outro?

Mito e razão, portanto, se complementam nas nossas vidas. Só que o mito de hoje – embora ainda tenha força para inflamar paixões, como no caso dos astros, dos políticos ou mesmo de causas políticas ou religiosas –, não se apresenta mais com o caráter existencial que tinha o mito primitivo. Ou seja, os mitos modernos não abrangem mais a totalidade do real. Podemos escolher um mito da sexualidade (Madona, talvez?), outro da maternidade, outro do profissionalismo, sem que tenham de ser coerentes entre si. Sem que causem uma revolução em toda vida. Assim como houve uma especialização do trabalho, parece que houve uma especialização dos mitos.

De qualquer forma, como o mito e razão habitam o mesmo mundo, o pensamento reflexivo pode rejeitar alguns mitos, principalmente os que veiculam valores destrutivos ou que levam à desumanização da sociedade. Cabe a cada um de nós escolher quais serão nossos modelos de vida.

 

 

  1. Considerações finais.

 

 

Assim podemos considerar que, o mito é um dos modos de atribuir significado ao mundo, tendo papel central nas sociedades tribais, e que, mesmo nas sociedades complexas de hoje, ainda garante o seu lugar. Sendo fruto do desejo de segurança, ele nos tranqüiliza por fornecer modelos exemplares para a nossa ação. Podemos, entretanto aceitar ou rejeitar os mitos que nos são oferecidos hoje a partir de uma reflexão a respeito dos valores sobre os quais estão fundados.

 

 

Texto extraído do livro Temas de Filosofia

Maria Lúcia de Arruda Aranha e

Maria Helena Pires Martins

Ed. Moderna pags. 63 à 67

 

ATIVIDADES

 

 

01.  Como se pode definir o mito ?

 

02.  Quais são as funções do mito?

 

03.  Quais são as características do mito primitivo e do mito moderno?

 

04.  Explique com suas palavras por que “negar o mito é negar uma das forças fundamentais da existência Humana”.

 

05.  Cite uma figura mítica para o seu grupo e explique como ela se transformou em figura exemplar.

 

06.  Explique o texto seguinte, a partir do conceito de mito:                                  “Não há homem do campo que não conheça para seu uso próprio infusões de raízes e folhas para males de diferentes órgãos, banhos de várias ervas para  machucados e inflamações, rezas e simpatias para chamar chuva ou afastar a peste de seu quintal, para livra-se de um achaque, para atrair dinheiro e etc. Mesmo na cidade, cresce o contingente dos que, de uma forma ou de outra, se ligam ás benzeduras, aos “trabalhos” nos terreiros, dos que guardam seus amuletos e medalhas, dos que deixam os seus ex-votos junto aos santos, dos que confessam uma crença no poder paranormal de operar que têm certos médiuns ou “doutores”, ou na eficiência de uma simpatia feita com fé”. (revista Mito e Magia, n.1. São Paulo, Editora Três)

 

07.  Escolha um ritual moderno e explique sua função mítica.

 

08.  Analise a discriminação, preconceito e o racismo, no Brasil e faça uma comparação com o mito?

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